Penélope e a alegria

astronomy dark dawn dusk
Foto por Matheus Bertelli em Pexels.com

Quando Penélope tira os sapatos e se deita no sofá, após chegar em casa, é sinal de que os relógios podem parar. Não há mais horários para cumprir, metas para alcançar e nem cobranças internas e externas. Só quer saber das poesias que brotam nos livros a sua volta. Ela tem vários, porque sabe que com eles também consegue ler as pessoas.

Parece estranho, mas Penélope é assim mesmo: simples. De um modo que, às vezes, não conseguimos entender. Queremos testá-la convidando para beber, sair para uma balada ou trocar farpas em uma discussão qualquer. Penélope se recusa: ela só quer poesia.

Talvez, falte-nos um pouco de compreensão quando ela movimenta os lábios suavemente diante dos livros. É como se seu corpo inteiro sorrisse por dentro e nos desse uma pontinha da sua alegria por fora.

A alegria

Quando pensamos sobre a alegria, imaginamos que se trata de algo que não podemos alcançar. Ou, ao contrário, sucumbimos ao desejo desenfreado por nos expor a situações que possivelmente contribuiriam para nos sentirmos alegres, por exemplo: excesso de compras, vícios e competição.

A primeira coisa que precisamos nos lembrar é de um cara do século 17 chamado Bento de Spinoza, um filósofo racionalista que ousou definir a alegria. Na tradução de Thomaz Tadeu, em Ética, da editora Autêntica, esse afeto “é a passagem de uma perfeição menor para uma perfeição maior”. É aquele estado que nos dá vida. É o aumento da nossa potência de viver. Tudo isso tem a ver com os bons encontros.

woman holding blue shakspere book over face
Foto por JJ Jordan em Pexels.com

Os bons encontros

Para Spinoza, podemos sentir alegria apenas ouvindo música, lendo um poema, conversando com alguém. O filósofo sabia deixar tudo explicado, embora há quem diga que é um pensador complexo. Nada disso. De tanto questionar a tradição, acabou sendo considerado um subversivo.

Nós não conhecemos a maioria dos nossos afetos. Parece meio inconcebível essa ideia, pois embora os ignoremos, estamos o tempo todo lidando com eles. Fico imaginando que, se fôssemos feitos daquelas massinhas de modelar de escola infantil, com o tempo, que tipo de modelagem seríamos ou estaríamos decorrentes de nossos encontros?

A alegria, de um modo bem reducionista, é quando nossa vida fica cheia da própria vida, exuberante, sentimos vontade de viver mais, surge uma força tenaz, a realidade que antes era um retrato p&b agora é colorida e em alta definição. Mais ânimo, sem preguiça, pura potência, mais ou menos como Penélope se sente ao chegar em casa, tirar os sapatos e encontrar seu livro preferido pronto para ser lido. Não importa quanto tempo dure a leitura, ela simplesmente se alegra com esse encontro.

A poesia dos afetos

A alegria que quero mencionar aqui é justamente  essa que acontece através dos nossos afetos. Podemos aproveitar nossos relacionamentos, sejam eles quais forem, para gerar alegria. Conhecendo nossos afetos e os conduzindo da melhor forma até a liberdade. Podemos sentir alegria de tantas formas e nas mais diferentes situações.

Nem sempre uma condição proporciona o mesmo estado alegre ou o mesmo afeto para quem a vivencia, isso é claro. Andar, pela manhã bem cedinho, quando ainda existe um friozinho, sentindo o vento, traz alegria para várias pessoas. É um encontro. Por isso, muitos se esforçam para caminhar todos os dias pela manhã. Para Penélope, essa sensação pode ser proporcionada também pelos livros. Para outras pessoas, isso não é importante. É preciso a adrenalina de uma atividade física ou mesmo dormir por mais tempo.

Para mim, basta saber que Penélope abre os livros mesmo quando chega em casa cansada. Ela sabe, como disse no início do texto que, ao ler poesias, tem mais chances de começar a ler também as pessoas. E, a partir daí, conseguir inserir, na medida da alegria, pausas menores ou mais longas numa convivência.

Talvez, Penélope só queira isto: que o encontro com todas as pessoas que estejam a sua volta seja alegre como são suas poesias. Um dia, ela consegue escrever esse poema. Eu também.

 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s