O que aprendi com as danças circulares

Um encontro que acontece mais ou menos assim: nos reunimos, umas com as outras, e começamos a girar. É dessa maneira que acontece o início de algumas danças circulares. Como dançantes, podemos perceber um misto de sagrado e cultura, mas não pensamos nisso como parte da roda. Seguimos o desenvolvimento do círculo como em uma verdadeira espiral.

É possível até identificar a origem da dança pela música, pelos gestos ou por algum comentário de quem conduz, porém, quando a grande roda se forma não pensamos em nada disso. Apenas começamos a girar, seguindo os passos, aprendendo na hora e, no mesmo instante, nos ajustando ao grupo.

O círculo nos conduz

Às vezes, quem está de um dos lados dança muito bem, é leve e fluímos tranquilamente. Em outros momentos, do outro lado, a pessoa não dança tão bem assim. Aí, vem aquela frustração porque parece que não vai dar certo. Sentimos o peso de quem dança, como se nosso corpo fosse puxado ladeira abaixo. Achamos que a roda, que deveria ser um círculo, está meio quadrada e, às vezes, está mesmo.

Nesse momento, percebemos que o desafio é este: fluir com o peso de quem está ao nosso lado, mas não cair com ele, chamar para cima, indicar um outro movimento. No espaço da dança não tem lugar para competição, não tem quem dança melhor ou pior, porque quem dança é o círculo. Por isso, é bom que nos acostumemos a nos dar as mãos.

As danças circulares trazem benefícios

Quando se está em comunhão com outros seres também carregamos seus propósitos. É fácil perceber isso quando estamos dançando. Nada é nosso porque tudo já está perfeito dentro do círculo. No livro Dança, um caminho para a totalidade (Editora Martins Fontes), o bailarino Benhard Wosien nos revela que a dança pode, sim, não só nos levar, como também, nos elevar à totalidade.

Promovem o encontro de culturas

A Dança Circular foi pesquisada, durante as décadas de 1950 e 1960, pelo dançarino. O pesquisador passou a divulgar o movimento dos mais diversos povos, promovendo a diversidade e, por consequência, uma cultura de paz. Em tempos de muros reais e imaginários, esse encontro de todos os povos é de uma urgência menos poética e mais vital.

Estabelecem vínculos

Durante uma roda, é bonito também perceber o desajustamento. Porque, com ele, verificamos que o ajuste pode acontecer através de todos, é colaborativo. Surge a espiral. Giramos. Giramos na pluralidade que somos, mas, principalmente, giramos percebendo que somos todos os povos.

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Foto por Tim Gouw em Pexels.com

Encorajam o envolvimento

Dançar é por si só puro envolvimento. Não há como fluir delicadamente pelo espaço se o envolvimento não acontece. Seja ele pela beleza dos toques, a sutiliza dos olhares ou, simplesmente, o compasso dos corpos. Mas, quando falamos de danças circulares, o envolvimento acontece por meio do chamado de encontros de cultura, estabelecendo que não há separações.

As pessoas se encontram no círculo, se olham. Elas não precisam de
espectadores, nem tampouco contam com eles. Logo reconheci o fundo
religioso e ritual dessas danças e essa compreensão foi ficando mais
forte. (Wosien, 2000, p. 109)

As saias das mulheres da roda voam. São de todas as cores, estampas, listras, tecidos, bordados. Rodopiam todas juntas. O sopro de cada volta e as sensações nos tornam todas cúmplices de nossas histórias ancestrais, de nossas lutas diárias e de nossos possíveis encontros inusitados.

As danças circulares têm vestidos encantadores, mas elas não são só das mulheres. Nessa roda, entra quem tem o coração aberto para entender que estamos todos conectados ao sagrado que é cada passo, respiração e pulsação.

Os desajustes também nos encantam

Aí, depois da dança, vamos embora para nossas casas. Nos despedimos. E nos esquecemos que a roda gira mesmo no desajuste. Logo no primeiro entrave da vida consideramos o outro sempre como melhor ou pior. Estamos o tempo todo nesta comparação injusta. Culpamos o outro até mesmo quando  o  peso é nossa responsabilidade.

four person standing at top of grassy mountain
Foto por Helena Lopes em Pexels.com

Nós nos esquecemos que o desajuste é nosso também. Que o fluir é o movimento de todos, que a comunidade que dança é comunhão. Os movimentos individuais e singulares são plurais. Se nos lembrarmos que a vida pode incluir como as  rodas de danças circulares e que ela pode girar mesmo nos desajustes, podemos fazer diferente.

Vamos dançar juntos. Podemos começar em nosso quintal, em nossa própria aldeia. É tempo de nos mover.

 

 

 

 

 

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