Alteridade e os diálogos imprevistos

O tempo está nublado. A internet insiste em cair de instante em instante. Espero a chuva calmamente, e com prazer, antecipando seu barulhinho na memória afetiva. Decido comprar um chá de jasmim que, na cidade pequena, só vende em um único lugar. No meio do caminho, faço uma visita e convido uma amiga para me acompanhar, descemos de elevador e ela comenta: vai chover.

Aqui e em qualquer cidade, o tempo sempre é notícia. Preferimos as manchetes externas do que as internas, que estão sempre à disposição: as nossas e as dos outros. É inevitável o desconforto que certas questões nos causam. Seguimos sempre evitando qualquer tipo de contato mais profundo. Talvez isso não fosse realmente um problema se fôssemos além do convencional, mas, na maioria das vezes, não vamos.

O aroma das palavras

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Foto por Elle Hughes em Pexels.com

Chegamos no mercado mais charmoso da cidade, onde tudo é vendido a granel, como antigamente.  Hibisco, morango, hortelã, erva cidreira, camomila, limão, canela. Passeio pela prateleira buscando o aroma do jasmim. Encontro.

A vendedora interrompe a busca já concluída oferecendo o preparo de um chá. A chuva já caia mesmo, ficamos pelo armazém observando cada detalhe. Enquanto isso: curry, noz moscada, azeites, páprica, entre outras especiarias também compunham o perfume do espaço.

Sentamos acompanhadas dos aromas que se misturavam. Cheiros da vida invadiam nossa tarde inesperada. Tentamos conversar sobre política, economia e direitos. Poderíamos ter ficado por aí, mas o verdadeiro diálogo vai além da teoria. É nesse momento que ouço: “Olha, eu não estou muito bem…”

A temperatura do diálogo

A mesa é um lugar onde não podemos escapar da conversa. Quando estamos, é claro, dispostos a enxergar o outro verdadeiramente. Quantas vezes nos perdemos em meio às palavras ao dizê-las ou ao ouvi-las? Em várias ocasiões, certamente.

Quando falamos com alguém temos a certeza de que o outro ouviu exatamente aquilo que queríamos dizer. Mas nem sempre é assim, sabemos disso. Às vezes, em muitos momentos, nós nem compreendemos o que queremos que o outro saiba. Simplesmente porque o espaço necessário para essa percepção não existe no momento.

Então, dizemos algumas frases sem sentido que parecem que têm sentido. Se o outro ouve isso, começa a confusão. Será que podemos ouvir verdadeiramente? Será que a tal da alteridade é real?

A alteridade possível

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Foto por Artem Beliaikin em Pexels.com

Em 1997, uma série de ensaios sobre o tema, do filósofo francês Emmanuel Levinas, foram reunidos em um livro e lançado pela editora Vozes. Na obra, Entre Nós (Ensaios sobre a alteridade), o pensador nos diz que o outro é Deus. Dependendo de suas crenças, você pode achar que há um exagero nisso. Talvez, haja. No entanto, eu gosto dos exageros de Levinas.

Nessa obra, ele também nos apresenta algumas pistas sobre como o outros se revelam a nós: pela proximidade.  É nesse ponto que descanso no pensamento do filósofo. O quão próximos ou distantes podemos estar enquanto  dividimos a mesa para conversar ou tomar um xícara de chá?

Deliciosamente, ele nos diz que só a proximidade pode nos revelar alguma coisa de outra pessoa. No entanto, esse estreitamento de relações pode acontecer de que forma? Para Levinas o outro é, quase sempre,  incompreensível. Ele entende a igualdade dos seres, mas nos diz que não podemos compreender o outro de forma comum: apenas quando estamos face a face  e nos deparamos com um desnudamento que, de certa forma, nos encanta e nos faz acolher.

Em meio às possibilidades, nós nos colocamos diante do outro e para o outro. É quando os equívocos se tornam ruínas e, a partir delas, começamos do zero. Um ponto em que os julgamentos cessam: os nossos e os do outro. No meio de um diálogo, a alteridade talvez seja a forma mais elevada de tentar se comunicar de forma honesta.

Cá entre nós

Nós somos seres desassossegados, queremos entender coisas e ter explicações para tudo, sentir tudo, ter experiências. É claro que vai depender da criatividade de cada um preencher o que são essas lacunas. Temos relações familiares, amizade, namoro, trabalho, queremos ouvir o outro. Ou pensamos que queremos. Pode ser que queiramos muito mais nos ouvir através do outro.

Esse tal de diálogo não é coisa simples de se realizar. Não é mesmo! Mas, às vezes, acontece. Não é questão de ensaiar. Digo isso no sentido de ficar antecipando acontecimentos na mente para ter uma determinada performance em uma conversa, querendo um certo resultado, realizando um negócio. É isso? Não entendo assim. Talvez esse exemplo esteja mais próximo de uma manipulação sutil.

contavidaO diálogo pode acontecer quando, enfim, percebemos que o outro é igual a nós mesmos: cheio de problemas. Aí, como num imprevisto, nos sentamos em qualquer lugar  e juntos conversamos sobre algo que nos toca ou que precisamos resolver. No momento em que desistimos de apresentar uma proposta com meta para uma conversa. É ir para o diálogo com um momento branco, que pode ser preenchido pela inexplicável sensação de não ter nada a perder nem a ganhar.

Alguns diálogos  são capazes de transcender porque não há o que se esperar. Se esperamos algo, já não os teremos. Também são aqueles pautados na ética do acolhimento, da inclusão. Não é nada fácil manter essa postura porque envolve o desnudamento sugerido por Levinas, mas é possível.

Esses são os diálogos que chamo de imprevistos, mas também podemos entender que é ir de coração aberto.

 

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