Dona Antônia e sua voz de envelhecer

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Foto por Mike em Pexels.com

“Se essa  rua, se essa rua fosse minha, eu mandava, eu mandava ladrilhar,  com pedrinhas, com pedrinhas de brilhantes para o meu amor passar”

Dona Antônia tem mania de cantarolar quando chega em casa. É como se anunciasse sua chegada com suas canções antigas e gostosas de ouvir. Ela, paradoxalmente, lembra infância.

Já perdi a conta de quantas vezes, no meu canto de escrever onde tudo acontece, sua voz chegou primeiro que ela.  As palavras envelhecidas pela presbifonia — processo de envelhecimento natural da voz a partir dos 65 anos — trazem recados e notícias de um futuro que é de todos nós: envelhecer.

Não posso continuar sem enfatizar o som das melodias que acompanha dona Antônia. Mesmo sendo um timbre envelhecido, não a torna frágil diante de nós.  Uma personalidade marcante chancelada por dois grandes olhos atentos, embora entristecidos. Ela  nos apresenta o ritmo da vida de forma doce, mas também áspero.

Envelhecer dói

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Não por acaso, esse é um tema constante por onde vou. As pessoas que conheço estão envelhecendo. Eu também. Já escrevi um artigo sobre meus primeiros fios de cabelos brancos. Nele, confesso, foquei demasiadamente nos pontos positivos da passagem do tempo. Eles existem, mas não só eles.

Na verdade, enxergo muita beleza nesse processo e carrego empolgação com os meus dois ou três fios branquinhos, mas envelhecer também dói. E é sobre isso que trata esse artigo, porque a dona Antônia, em cada um de nós, está pronta para nos lembrar todos os dias dessa corrida.

O número de idosos que vivem em asilos subiu para 33%, dados de 2012 a 2017, segundo o Ministério de Desenvolvimento Social, no Censo SUAS, em reportagem da Folha de São Paulo. Muitas donas Antônias, Marias, Joanas e Seus Josés, Joãos, Franciscos  nos comovem com esse número.

Ouvir quem envelhece

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Foto por rawpixel.com em Pexels.com

Dona Antônia faz parte das estatísticas, mas ela não é uma delas. É essencial nos lembrar que por trás dos números há pessoas e histórias.

A visita diária  corria bem  até que ouço: “o idoso quer é ser ouvido”, segue um choro sofrido. Parei de escrever e concentrei minha atenção nesse fragmento quase isolado do contexto, quase um eco no Jalapão.

Sabe, quando tudo para por um breve instante? É o momento que não podemos contar. O segundo da notícia estarrecedora e de nossos dramas pessoais. Quando algum ente querido se vai, somos demitidos ou quando nos damos conta que geramos sofrimento para alguém.  Um instante que não se contabiliza no tempo. É o frio na barriga quando a ficha cai.

Se essa rua, dona Antônia, fosse minha, eu também mandava ladrilhar para a senhora e  suas inúmeras histórias de viver, seus encantos e desencantos, suas dores e alegrias, sua folia e, principalmente, o seu descanso.

Trocar de lugar

Instantaneamente me coloquei em seu lugar. Um filme do futuro passou pela minha mente: mais ou menos dia, talvez estivesse dizendo a mesma coisa. É possível que também lastime por alguma  carícia perdida e tente encontrar explicações — como se isso fosse possível.

Lembrei-me dos idosos que conheço, uns fortes e vigorosos, outros tristes e resmungões. Certamente,  há possibilidades e caminhos diferentes, mas o corpo envelhece. No entanto, há pessoas que transbordam empatia e isso me fez lembrar também da cuidadora de idosos, desempregada, que adotou uma senhora. As pessoas bonitas estão entre nós. É bom saber disso.

Naquele instante, eu queria dizer a dona Antônia que tudo ficaria bem. Mas eu não sei o que é estar com 81 anos de idade, embora tente me lembrar que tudo é, enfim, impermanente. Eu queria ter a habilidade de dizer, por exemplo, para que ela aproveitasse o tempo — como se eu soubesse.

A verdade é que eu não sei o que é ser idosa. Não posso dizer a ela o que fazer. No entanto, nós queremos sempre dar aos outros receitas de uma boa vida. Na maioria das vezes, estamos errados. Mal conseguimos dar conta de nossa própria trajetória. Eu, com menos da metade da vida de dona Antônia, fiquei com a delicadeza do silêncio.

Eu queria dizer muitas coisas a ela, mas eu sou aluna. Eu não ensino, eu aprendo. Não posso indicar qual é o caminho do alívio, porque ela já havia dito: “o idoso quer é ser ouvido”.

Nós ouvimos, dona Antônia. Nós ouvimos.

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